
Quando menina, eu adorava rabiscar as paredes de meu quarto. Das coisas q desenhei e escrevi, lembro-me nitidamente algo como “A falta de tempo a gente inventa!”. Essa visão saudosista de uma época recheada de sonhos e poesia me veio à memória como um flash back instantâneo após, uma também rápida, troca de palavras com um ilustre e culto amigo. “Discutíamos” sobre a relatividade do tempo e o significado pessoal dado ao termo “nos velhos tempos”. Cessado o breve assunto, continuei a divagar sobre a respectiva questão, concluindo q isso me é tão significativo quanto falar sobre a vida, a ciência ou a existência humana, afinal todos esses aspectos correlacionam-se naturalmente. Lembrei-me também o porquê gosto tanto de algumas letras de música, como a da Fernanda Takai que diz “... Tempo, tempo, mano velho, falta um tempo eu ainda sei, pra você correr macio!...” Sim, o tempo é um irmão que merece atenção especial a cada segundo vivenciado e quanto mais vivermos, mais consciência dele teremos.
Continuei a resgatar coisas do meu baú de memórias, e veio à mente uma canção, mais antiga ainda, sucesso nos anos 80, intitulada “Sapato Velho” de Mu, Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós, interpretada pelo grupo Roupa Nova. “Você, lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói, era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy (...). Hoje, não colho mais as flores de maio, nem sou mais veloz, como os heróis. É talvez eu seja simplesmente como um sapato velho. Mas ainda sirvo se você quiser, basta você me calçar, que eu aqueço o frio dos seus pés.” Por que será que essa letra sempre me afetou emocionalmente, a ponto de causar catarse e provocar lágrimas teimosas? É como uma melancolia premeditada de um tempo ainda não vivido. Um respeito do que há por vir.
Mas, afinal, pode uma reflexão tão complexa ser fundamentada na cultura popular? Eu diria, sem medo de colocar em risco minha formação acadêmica, que existe filosofia pura nos saberes ditos espontâneos e que ela não é explorada de modo consistente. Embora esses músicos citados nada tenham de ingênuos, ao contrário, buscam, a cada momento, a qualidade em suas palavras, mas com a finalidade de atingirem, de modo simples, um público cada vez maior formado por diferentes classes.
Retomando o conceito pessoal de tempo, de uma maneira propositadamente atemporal de relacionar os fatos, recordei, ainda, de um poema recente, por mim escrito, também intitulado Tempo:
Preciso de um tempo, Das palavras, Das ações, Das convicções... Preciso de um tempo, Dos deuses, Dos dolmens, Dos homens... Preciso de um tempo, Dos grilos, Dos bichos, Dos lixos... Preciso de um tempo, Das almas, Das gentes, Das mentes... Preciso de um tempo, Das coisas, Das dores, Dos amores... Preciso de um tempo, Do não, Do sim, De mim... Preciso de um tempo, Do tanto, Do quê... De você!
Posso dizer, sem medo de contradizer-me, que, hoje essas palavras já não me fazem tanto sentido. Pois, foram expurgadas, como em uma autoterapia, em um momento de crise emocional. Dizer e des-dizer, construir e des-construir, etapas que fazem parte do processo criativo e q podem ser aplicadas a vida. Sem esquecer que após a desconstrução, sempre vem a reconstrução. Por isso, dizer agora oposto do q se disse antes, já não pode mais ser considerado falta de linha de pensamento, mas abertura a novos horizontes.
Isso me remete à outra música, de tempos mais longínquos e muito marcante na História da MPB: a música de Raul Seixas, escrita pelo, hoje reconhecido mundialmente “guru”, Paulo Coelho. Parafraseando aquilo q já se tornou jargão e que nos dias atuais é repetido sem pretensões políticas, saber ser com convicção a tal “metamorfose ambulante” é, de certa forma, um lugar seguro para quem foge de receitas cartesianas de ver o mundo. “Ter a velha opinião formada sobre tudo” já não é mais visto como sapiência absoluta, mas sim como limites que dão abertura ao senso comum. E não é de hoje q investiga-se o senso comum, vinculado não apenas à especulação amadora, mas também ao meio acadêmico. Bronowski, um matemático defensor do pensamento intuitivo, definiu o senso comum na ciência como um espaço limitado por vícios metodológicos e preconceitos intra-classe científica.
Mas afinal, q isso tem com o tempo? Tudo. O tempo e suas possibilidades em relação ao ritmo individual e ao espaço têm aspectos relativos. Quando, naquela conversa com meu amigo sobre os “velhos tempos”, refleti sobre o que seria velho tempo para mim e para ele. Com certeza os pontos de vistas diferentes levam a caminhos diferentes. Para ele, não havia o “velho” uma vez que, sobre o assunto abordado naquele momento, estava consciente de que não houve transição nem mudanças de sua parte. Mas para mim sim, o modo de agir e de pensar pode mudar em frações de segundos. Às mudanças de longo prazo, q levam às vezes séculos, dá-se o nome de revolução. Às mudanças bruscas advindas do inconsciente dá-se o nome de insight. E ambas resultam em quebra de paradigma. O tempo individual, no entanto, é relativo. Meu processo, modo de ver e interagir com o mundo e o espaço-tempo é singular. Essa relatividade, sobre o espaço-tempo vem sendo convalidada desde quando um cientista à frente se sua época, chamado Einstein, a tornou teoria.
Esse texto, portanto, poderia pretensiosamente ser chamado de ensaio, se eu, em um ímpeto de espírito científico passasse a discorrer teoricamente sobre Galileu, Newton, Leibniz, Einstein, e seus conceitos sobre tempo, geociências, física, velocidade da luz, dimensões paralelas, etc. Porém, por mais complexo e amplo q possa ser um discurso sobre o tempo, o foco aqui é subjetivo. Cada indivíduo passa pelo tempo no seu ritmo individual. Por vezes, acontece um encontro entre uma pessoa e outra que pode, mesmo em espaços diferentes, as colocarem sincronia por segundos ou por toda uma vida. E a este momento de sincronia dá-se o nome de afinidade.
Finalizarei citando o brilhante Artur de Távola, quando em seu poema sobre afinidade reporta-se ao tempo:
AFINIDADE é não haver tempo mediante a vida.
É a vitória do adivinhado sobre o real, do subjetivo sobre o objetivo,
do permanente sobre o passageiro, do básico sobre o superficial.
(...)
AFINIDADE é retomar a relação no tempo em que parou.
Porque ele (tempo) e ela (separação) nunca existiram.
Foi apenas a oportunidade dada (tirada) pelo tempo para que a maturação pudesse ocorrer e que cada pessoa pudesse ser cada vez mais.
Para mim, portanto, escrever algumas linhas sobre o assunto foi como se eu voltasse a ser aquela menina q desenhava na parede do quarto. Eu menina, em sincronia comigo mesma, mulher. Parece q o tempo parou de repente, que esses mais de vinte anos não aconteceram. Sou a mesma, mas de alguma forma melhor, porque posso, agora, refletir sobre meu próprio percurso. Não conto minha história baseada apenas em sonhos e poesias, mas em experiência de vida, em uma soma de sentimentos, conhecimentos e amizades. Quanto aos raros amigos, agradeço a todos por terem me ajudado a ser o que sou. Por permitirem compartilhar de seu tempo comigo e pelos momentos de afinidade absoluta. A você amigo culto e oculto, um agradecimento especial por, de alguma forma, estimular todas essas reflexões.
Enfim, sou a soma do que permiti e do que não havia permitido antes em minha vida. Só agora posso compreender um pouco mais sobre a importância do tempo bem aproveitado. E aproveitar o tempo não quer dizer, preenchê-lo abusivamente de atividades físicas e intelectuais. É também poder entregar-se, sem culpa à ociosidade, escrever livremente, pintar e bordar. Porque, como diz Domenico Di Masi, o ócio criativo é um caminho para a melhoria da qualidade de vida do indivíduo. Mas se o tempo para isso for paradoxalmente limitado, basta aproveitar intensamente cada minuto. Afinal de contas,
A falta de tempo a gente inventa!